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O 1º Dia Mundial da População foi estabelecido pelas Nações Unidas a 11 de julho de 1987, celebrizando o dia em que a população mundial terá atingido os cinco mil milhões. Após mais 35 anos de crescimento demográfico, o 11 de julho deste ano antecipa, por alguns meses apenas, a ultrapassagem da barreira dos 8 mil milhões. O Mundo está cheio?

A pergunta não é nova e não tem uma resposta inequívoca. Há muito que os demógrafos e os economistas se habituaram a pensar no volume da população, estabelecendo uma relação direta e de dependência com os recursos existentes, nomeadamente alimentares. Esse foi o legado de Thomas Malthus (1766-1834). Imaginando uma capacidade infinita de produção alimentar, não haveria lugar a tal questionamento sobre a população e o seu crescimento. Todos caberiam à mesa do banquete, para usar a metáfora criada por Malthus.

Mas sabemos que não existe tal capacidade de proporcionar o aumento dos recursos alimentares sem restrições (e hoje deveremos incluir outros recursos, como os energéticos, os ambientais, as matérias-primas, ou a água potável), pelo que o Mundo estará cheio na medida da incapacidade da satisfação plena das necessidades sociais de bem-estar, pese embora o progresso globalmente considerado.

Talvez seja prudente afirmar que o Mundo está cheio em muitas regiões do chamado Sul global, que se estende da América Latina à Ásia, a África, ao Médio Oriente; que terá atingido um ótimo populacional (perfeito equilíbrio entre população e recursos) nalgumas poucas regiões do Globo; e que estará até menos vazio ou em risco de despovoamento grave noutras regiões, e aqui podem incluir-se muitas zonas despovoadas do Ocidente Europeu, da Rússia e da China, dos Estados Unidos ou do Canadá, ou mesmo da Austrália, mas também a quase generalidade das zonas rurais (de Norte a Sul do planeta).

Assim, neste Dia Mundial da População, o que podemos inequivocamente afirmar é que o Mundo está desequilibrado em termos de povoamento, com concentrações populacionais (megalópoles) inimagináveis há algumas décadas atrás, e com zonas onde deixou de ser possível viver ou procurar viver.

Este desequilíbrio gera uma insegurança humana tremenda, quer aos que vivem nas cidades em condições muito precárias, quer aos que vivem nos territórios isolados e desprovidos de meios.

É legítimo procurar suster a vertigem urbana e o despovoamento rural? É imperativo! As políticas públicas deveriam servir esse desiderato, chamem-se de população ou tenham qualquer outro qualificativo, na condição de servirem para a satisfação das necessidades de bem-estar dos povos. Mas é uma discussão a fazer, urgentemente.

Muitas das catástrofes a que assistimos, ditas naturais, resultam também e em grande medida destes desequilíbrios. Refiro-me às cheias que matam centenas de pessoas nos bairros precários das periferias urbanas na América Latina, na Ásia, em África; ou aos fogos rurais e florestais do Ocidente Europeu, nos quais Portugal pontua muito negativamente, simplesmente porque os territórios foram abandonados e já poucos lá se encontram, e já escasseiam os recursos públicos e privados para impedir estas catástrofes.

Neste Dia Mundial da População vale ainda alertar para um outro facto muito relevante, que se começa a expandir um pouco por todo o Mundo: o envelhecimento da população. Aqui, a questão sensível não é existirem velhos a mais, mas jovens a menos. De novo, é o desequilíbrio demográfico que provoca uma insegurança muito significativa, sobretudo em termos da capacidade de manter uma coesão geracional que funcione em prol de todos.

Adio a reflexão sobre os movimentos migratórios à escala mundial e regional para 18 de dezembro, Dia Mundial das Migrações. Neste capítulo da demografia, hoje como no passado, as migrações exprimem em grande parte os desequilíbrios que vamos acumulando, e que dificilmente se resolvem deste modo, embora não possamos apontar o dedo a quem, justificadamente, procura fugir às terríveis consequências da desregulação dos recursos a que assistimos.

Paulo Machado

Presidente da APD